Filosofia & Interdisciplinariedade

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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Da dialética parte - todo


O problema não é ver que o coração não é um rins ou que o sistema digestivo é diferente do sistema circulatório, cardiovascular, linfático, excretor...o problema é não ver que os sistemas compõem um organismo. Se olhamos para a floresta e não enxergamos que ela é composta de árvores, alguma coisa está errada, mas se olhamos para as árvores e não percebemos que elas fazem parte de uma floresta, alguma outra coisa continua errada, daí a importância da dialética com seus três elementos: totalidade, mediação e contradição.

sábado, 24 de setembro de 2016

A esquerda, a direita e o maniqueísmo - Antonio Marques


Tenho insistido que nossa linguagem ainda é bastante insuficiente para dar conta da complexidade dos fenômenos existentes. Mas com um pouco mais de cuidado e reflexão podemos evitar alguns abusos destas precariedades linguísticas. Refiro-me às categorias esquerda e direita. Elas surgiram no contexto da Revolução Francesa e representavam as posições físicas e políticas dos membros da Assembléia Nacional, os partidários do rei ficavam à direita do presidente e simpatizantes da revolução à sua esquerda. 

A ciência política e as análises políticas feitas por não cientistas, desde então, tem com frequência feito uso de tais categorias. 

Hoje, podemos dizer, de modo bastante simplificado que dentro da dicotomia igualdade-liberdade, a esquerda se posiciona mais pela igualdade e a direita mais pela liberdade, incluindo aqui a liberdade econômica, a liberdade da burguesia de continuar explorando a mais-valia, a liberdade de manter a concentração de poder e propriedade a despeito da situação de todos. 

A esquerda, em tese, tem mais empatia pelo sofrimento humano, a direita é mais egoísta e individualista. Obviamente que estas categorias não são estanques e que funcionam em forma de espectro, são categorias relacionais. O PT pode ser esquerda quando comparado ao PSDB/DEM, mas é direita quando comparado ao PSTU/PCO e assim por diante.

O mundo seria relativamente fácil se pudesse ser simplificado numa dicotomia. Os bons seriam de esquerda e os maus de direita, mas o mundo é um pouco mais complexo. Mais do que repetir o truísmo, "na prática a teoria é outra", se trata de mostrar que as análises e as teorias e categorias sobre as quais se sustentam precisam se complexificarem para continuarem sendo instrumentos úteis de explicação e compreensão da realidade. Ou seja, qualquer esforço honesto de compreender a realidade irá perceber que o MANIQUEÍSMO é um instrumento de compreensão por demais precário. Seja o maniqueísmo de direita, seja o maniqueísmo de esquerda.

Do ponto de vista teórico, tenho afinidade com a esquerda. Creio que a desigualdade social é sim um problema central da humanidade e deve sê-lo também do Estado, a quem tem por dever dar soluções para o problema. Mas na prática tenho me deparado com algumas práticas da "Esquerda" que me deixam cada vez mais desanimados com o ser humano.

Quando por exemplo encontramos palestrantes esclarecidos propondo que dividamos os amigos dos inimigos exclusivamente segundo seus posicionamentos sobre um fato político, como por exemplo o Golpe do Governo Temer, por maior que seja a envergadura do acontecimento, ainda assim fico temeroso.

Fico temeroso quando vejo propostas de exclusão das pessoas dos grupos de whatsapp apenas porque elas não disseram SIM para os pensamentos que se pretendem os verdadeiros e justos.

Fico temeroso quando as pessoas insistem em enquadrar o mundo nos seus esquemas interpretativos ideais, como por exemplo querendo tratar os partidos e seus filiados como se fossem instrumentos coesos, quando na prática se sabe que boa parte dos partidos brasileiros são partidos pega-tudo. E que por mais errado que seja alguém estar num partido sem a preocupação que ele seja de fato um grupo, que tenha unidade entre programa, estatuto e prática, esta é a realidade de muitas pessoas.

Fico temeroso quando se defende analogias entre humanos e cobras, ou qualquer outro animal peçonhento, para justificar o combate firme, para ser eufêmico, a certos humanos. Dá para se imaginar o que deve se fazer com cobras, segundo algumas concepções.

Fico temeroso quando numa assembleia de supostos “educadores”, que dizem ter lido Paulo Freire, as falas das quais se discorda são vaiadas numa tentativa explicitamente protofacista de inibir e calar o divergente. Educadores tais, que lutam duramente contra a igualmente protofacista Lei da Mordaça.

Fico temeroso quando na microfísica do poder os golpes cotidianos que se leva não vem da maldosa e inimiga direita, mas dos companheiros de luta por um mundo melhor. A que se continuar perguntando. Melhor para quem? Melhor para quantos?

NENHUMA ILUSÃO COM O SER HUMANO, 


NENHUMA ILUSÃO COM O SER HUMANO, 


NENHUMA ILUSÃO COM O SER HUMANO...


Esteja ele em qualquer parte do espectro político.

domingo, 4 de setembro de 2016

O voto é importante, mas não vamos nos iludir - Por Antonio Marques



São muitos os anarquismos mas para simplificar diremos que todos propõem o Voto Nulo, o boicote às eleições pois Estado e Capital são instrumentos de controle complementares à serviço da Ditadura da Classe Burguesa. Os anarquismos objetivam uma sociedade sem classes e creem que para tal, entre outras recusas, está a de não disputar o parlamento, embora reconheçam o parlamento como instrumento de ataque aos trabalhadores. O diagnóstico pode estar certo, mas o método seria o melhor para resolver o problema? Quando não escolhemos entre as opções, a menos pior, recusamos a utilizar o mínimo de decisão que está em nossas mãos e isto faz a diferença. Apenas pessoas de escasso discernimento dirão que Lula e FHC são iguais, que Pimentel e Aécio são iguais, que Bolsonaro e Nilmário são iguais. Por isto voto. Não porque creio que o sistema como funciona está bom, mas porque não vejo possibilidade de melhorá-lo ignorando-o. O Estado é apenas um instrumento. Pode ser colocado à serviço da dominação ou à serviço da libertação e do bem comum. É tudo uma questão de massa crítica. E a mudança que não recusa o Estado demanda uma massa crítica bem menor do que a massa crítica necessária para qualquer mudança substancial sem o uso do Estado. Supondo que os objetivos sejam os mesmos e apenas os meios sejam diferentes temos que considerar que alguns meios gastam menos tempo e energia do que outros, que alguns meios criam o maior bem possível, no menor tempo, para o maior número de pessoas, pelo maior tempo possível do que outros meios e por isto devem ser escolhidos. Quem quiser boicotar o sistema tem meu apoio. Mas deveria de fato parar de pagar impostos, parar de usufruir da infraestrutura pública e criar autossuficiência, mas se forem ficar na sociedade, o voto nulo é um equívoco, caso seja fruto de uma pretensa consciência política e não do indiferentismo político e da apatia.

E se tirássemos apenas a primeira leva de candidatos, não melhoraria?  

Será que se tirássemos as primeiras lideranças que são orgânicas, surgidas das relações sociais concretas, apareceriam líderes bons? Se pudéssemos escolher livremente, entre candidatos e não candidatos, quem seria o brasileiro ou brasileira que deveria ser presidente do Brasil? Por que talvez na ilusão de tirarmos os ruins para que os bons surjam, podem surgir outros piores ainda. Feitos do mesmo material que é feito os políticos contemporâneos, o povo brasileiro. Se não sabemos quem vamos colocar vamos tirar toda a leva de primeiros candidatos? Penso a política como uma ciência, um esporte, uma administração....para tirar um jogador é bom saber quem vai substituí-lo.  Mas também não descarto a hipótese de que tirando os primeiros possa aparecer melhores depois. Há sim, sem dúvidas muitos talentos escondidos, muitas lideranças de alto gabarito que nunca tiveram suas habilidades demandadas, mas isto é bem raro, vamos concordar. Eu não saberia te dar um bom exemplo, na história.

É conversando que a gente se entende? Antonio Marques



Se há diferentes percepções e concepções de justiça, de humanidade, de corpo, de natureza, de vida, de morte, de bem-estar, de saúde, de práticas curativas, de dignidade humana...irão surgir, provavelmente, tensões entre moralidades divergentes e alternativas também múltiplas para resolverem os conflitos. Neste campo há desde a defesa do predomínio do mais forte até a construção de um acordo que tente satisfazer a todos os envolvidos, um pacto de convivência entre as diferenças e que leve em conta as cosmovisões de todos.

A construção de um acordo, de tal modo que os meios e os fins estejam unidos, só pode ser feita pelo diálogo voluntário. A Regra de Ouro então não é “não faças aos outros aquilo que não queres que te façam” mas sim “não faças aos outros aquilo que eles não querem que lhes seja feito”. Para isto precisamos dar voz a todos os envolvidos. O diálogo entre os indivíduos e as culturas pode possibilitar a cada um desenvolver tolerância às diferenças e consciência de nossas próprias incompletudes. ....várias comunidades morais podem coabitar o universo de uma nação, várias nações podem coabitar pacificamente num mesmo planeta...

Mas o diálogo, a discussão, o debate...públicos na sociedade civil brasileira ainda está no paleolítico. Muita gente não gosta nem mesmo de ser questionada mesmo que de modo respeitoso. Se alguém discorda do nosso ponto de vista temos que perguntar o porquê. E se o porquê não nos convencer, apresentar nosso argumento, e assim o diálogo pode fluir de modo a chegarmos a um consenso ou, ao menos, a uma compreensão,  com maior nitidez, das nossas diferenças. E se há desacordo quanto às categorias utilizadas, elas devem se tornar imediatamente a pauta da nossa interação. Apenas aferindo nossos termos e sintonizando nossas vibrações podemos verdadeiramente nos compreender.

E aqui na Terra, por mais que alguns se sintam superiores, somos todos sobreviventes e somos também todos mortais. Só não morre, os que não nasceram. Todos temos nossas convicções, mas isto não quer dizer que estamos todos certos. Há valores, sistemas de pensamento, pontos de vistas e argumentos melhores do que outros. Do ponto de vista do bem comum, o anti-racismo é melhor que o racismo, a anti-homofobia é melhor que a homofobia, o anti-fascismo é melhor que o fascismo, o feminismo é melhor que o machismo-femismo, o discernimento, a humildade e a maturidade são melhores que a presunção, a arrogância e a imaturidade.

O diálogo desta forma pode se tornar menos um véu que nos divide e mais um instrumento de humanização e auxílio na libertação dos sujeitos da condição de “seres para o outros” para a condição de “seres para si”.